
Quase um mês após o derramamento de petróleo no rio Amazonas, as comunidades afetadas relatam que o atendimento prestado até o momento é parcial e insuficiente para cobrir suas necessidades básicas. Enquanto continuam expostas a riscos para sua saúde e subsistência, aumentam as demandas por uma resposta mais eficaz, transparente e com garantias de reparação ambiental.
Por: Centro Amazônico de Antropologia e Aplicação Prática (CAAAP)
Em 11 de abril de 2026, ocorreu um derramamento de petróleo no rio Amazonas, na província de Maynas (Loreto), após um acidente envolvendo um comboio de embarcações da empresa Petrotal que transportava aproximadamente 50 mil barris de petróleo bruto do lote 95. Segundo informações do Organismo de Avaliação e Fiscalização Ambiental (OEFA), o volume derramado é estimado em cerca de 285 barris. A contaminação se espalhou por vários trechos do rio e afluentes próximos, afetando dezenas de comunidades indígenas e ribeirinhas, entre elas povos Yagua, que dependem diretamente do rio para sua subsistência e acesso à água. Atualmente, fala-se em 22 comunidades afetadas.
Diante da emergência, o OEFA determinou uma medida preventiva que obriga a empresa responsável, LM Navegação e Transporte LTDA, a fornecer gratuitamente água às populações afetadas. A entidade também supervisiona os trabalhos de contenção e limpeza, e informou que a medida permanecerá em vigor até que seja garantida a recuperação da qualidade da água. Nesse contexto, atualmente estão sendo distribuídos aproximadamente 18 mil litros de água para consumo humano e cerca de 55 toneladas de mantimentos. No entanto, essa assistência é considerada insuficiente pela população, já que cobre apenas necessidades básicas, como beber e cozinhar, sem garantir acesso à água para higiene ou outras atividades cotidianas.
“A empresa não está cumprindo 100%. Estão fornecendo água apenas para beber, mas ela não é suficiente para tomar banho nem para tudo o que precisamos diariamente, inclusive cozinhar”, afirmou Juan Pablo Huani Carihuazari, representante da paróquia de Yanashi e integrante da Comissão Local de Gestão do Derramamento. O dirigente também questionou a demora no atendimento: “Já passou bastante tempo desde o derramamento e só agora estão começando a cumprir, por volta do dia 28. Esperamos mais de duas semanas sem apoio real”, declarou.
Além disso, ele indicou que a empresa ainda não atendeu à reparação dos sistemas de água existentes nem respondeu às propostas de apoio técnico para melhorar o acesso à água segura na região. Enquanto isso, as comunidades continuam dependendo de soluções temporárias em um contexto de risco sanitário. Moradores de Yanashi também relataram supostos impactos à saúde após o derramamento, entre eles erupções na pele, dores de cabeça e cólicas, sintomas que, segundo informaram, começaram a aparecer após a contaminação do rio. As comunidades expressam preocupação com os possíveis impactos prolongados da exposição à água contaminada e exigem atendimento médico adequado.
Organização comunitária diante da emergência
Huani Carihuazari destacou ainda que as comunidades se organizaram de maneira autônoma por meio de uma comissão integrada por autoridades locais, profissionais de saúde e representantes da paróquia, com o acompanhamento do Vicariato de São José do Amazonas. Essa instância, juntamente com assessoria jurídica, decidiu não assinar acordos com a empresa até que sejam garantidas a limpeza total da área e a recuperação comprovada da água e dos ecossistemas. Paralelamente, continuam os trabalhos de limpeza por meio de uma empresa contratada e financiada pela companhia responsável, embora ainda sem um prazo claro para sua conclusão.
O Vicariato Apostólico São José do Amazonas expressou, desde 18 de abril, sua preocupação com a situação, alertando que as comunidades continuam sem acesso à água segura e enfrentam graves riscos para sua saúde, alimentação e vida. Também advertiu sobre a presença de peixes mortos e a falta de transparência nas informações sobre a magnitude do derramamento. Em seu pronunciamento, exigiu o abastecimento imediato e contínuo de água potável, atendimento integral de saúde para as populações vulneráveis, transparência sobre os impactos do derramamento, um plano urgente de contenção e remediação ambiental, a determinação de responsabilidades e a reparação dos danos ocasionados. Além disso, solicitou a presença ativa do OEFA e mecanismos de supervisão independente com participação indígena.
Esse novo derramamento volta a evidenciar a situação de vulnerabilidade em que vivem os povos amazônicos diante dos impactos decorrentes das atividades extrativistas. Garantir água segura, atendimento de saúde, remediação ambiental e justiça para as comunidades afetadas não pode continuar sendo adiado.