Igreja Católica da Amazônia peruana denuncia pobreza, corrupção e abandono estatal na região de Loreto

Os pastores da Igreja Católica na região amazônica de Loreto, no nordeste do Peru, emitiram um pronunciamento público no qual expressam sua preocupação, angústia e indignação diante dos elevados índices de pobreza monetária registrados na Amazônia peruana, denunciando também corrupção, abandono estatal e falta de vontade política para atender às necessidades da população.

Por: Micaela Díaz – ADN CELAM

O pronunciamento foi assinado por Dom Miguel Ángel Cadenas Cardo, bispo Vigário Apostólico de Iquitos; Dom Jesús María Aristin Seco, bispo Vigário Apostólico de Yurimaguas; e o padre César Luis Caro Puértolas, administrador apostólico do Vicariato São José do Amazonas, juntamente com os Conselhos de Missão dos três vicariatos apostólicos e diversas paróquias signatárias. A declaração surge após a divulgação do relatório do Instituto Nacional de Estatística e Informática (INEI), publicado em 5 de maio, sobre a pobreza monetária no Peru em 2025, que coloca o departamento amazônico de Loreto como a segunda região com maior taxa de pobreza monetária do país, atingindo 40,1% da população.

“Constatamos diariamente o sofrimento da população”

Os bispos e representantes eclesiais manifestaram “preocupação e dor” pelo fato de uma parte tão significativa da população viver em condições de pobreza ou pobreza extrema, situação que impede o atendimento adequado das necessidades básicas de alimentação, saúde e educação. “É algo que constatamos diariamente”, afirmaram. Ao mesmo tempo, expressaram sua “angústia” diante do dado de que 32,8% da população de Loreto se encontra em situação de vulnerabilidade econômica, ou seja, famílias que mal conseguem cobrir o custo da cesta básica, mas que podem cair rapidamente na pobreza diante de qualquer dificuldade, como uma doença ou perda de renda.

A Igreja também manifestou sua “desolação” ao saber que os índices de pobreza aumentam para 46,2% nos lares cujo chefe de família tem como língua materna um idioma indígena amazônico, evidenciando as desigualdades que afetam os povos originários da Amazônia.

“Há um sentimento geral de abandono”

No documento, os representantes eclesiais afirmam que a situação social em Loreto não melhorou nos últimos anos e que, pelo contrário, muitas comunidades percebem uma deterioração crescente em suas condições de vida. “Queremos expressar a indignação de nossos povos, que dia após dia constatam com seu sofrimento que a situação não melhorou nos últimos anos, mas se mantém e até piora”, afirmaram. Além disso, denunciaram que existe “um sentimento geral de abandono por parte do Estado”. A Igreja questionou particularmente as autoridades regionais e municipais, indicando que, embora disponham de recursos públicos, estes não se traduzem em melhorias para a população: “O Governo regional de Loreto e as prefeituras dispõem de recursos, mas a qualidade de vida da população não melhora”.

Segundo o pronunciamento, isso evidencia que “não há vontade política de serviço ao bem comum por parte dos gestores públicos”, e que a “depredação” que historicamente tem afetado a Amazônia também alcança os orçamentos estatais.

Corrupção e conflito social

As autoridades católicas denunciaram ainda que a “corrupção perpetua a pobreza e impede o desenvolvimento da nossa região”. Ao mesmo tempo, apontaram que essa situação gera constantes conflitos sociais, tensão e episódios de violência, como os registrados recentemente no rio Corrientes. Nesse contexto, recordaram que Loreto continua sendo, em meados de 2026, a região com maior conflito social do Peru. Diante desse panorama, a Igreja exortou as autoridades a trabalharem “com dedicação e responsabilidade” para reduzir as lacunas de pobreza que afetam os povos amazônicos, administrando os recursos públicos com honestidade e transparência.

O pronunciamento cita palavras do Papa Francisco, retiradas da encíclica Fratelli Tutti: “É um ato de amor igualmente indispensável esforçar-se para organizar e estruturar a sociedade para que o próximo não se encontre na pobreza”. Deus escuta o clamor do povo pobre e vulnerável. Também fizeram um chamado à cidadania para exercer de forma responsável o direito ao voto, escolhendo “os candidatos mais capacitados e confiáveis”, que busquem o bem comum acima de interesses particulares ou partidários.

Os signatários também recordaram palavras do Papa Leão XIV: “Devemos nos comprometer cada vez mais para resolver as causas estruturais da pobreza. É uma urgência que não pode esperar”. Os representantes eclesiais afirmaram que combater a pobreza e atender ao sofrimento das populações vulneráveis “é tarefa de todos e uma chamada urgente de Deus”, que, segundo recordam citando o livro do Êxodo, “continua a escutar o clamor do povo pobre e vulnerável”.