
Após três dias de intenso diálogo e tecido fraterno, o III Festival JUNTANZA concluiu-se em um ato carregado de simbolismo. O encontro, que reuniu mais de 150 jornalistas e defensores da natureza, encerrou com a leitura da “Carta do Equinócio”, um manifesto que simboliza o pulsar da comunicação comunitária com os ciclos da terra, reafirmando que nossa palavra é semente de transformação em toda a América Latina.
Por: Dayarana Quinteros – REPAM Equador
O eixo central foi a transição ecossocial, entendida como uma nova matriz de vida em que a comunicação é a ponte para defender a Casa Comum. Foram compartilhadas experiências de resistência vital, como a luta contra a mineração na Amazônia e os processos organizativos das nacionalidades amazônicas no Equador, onde o uso das redes sociais e a investigação jornalística se tornaram ferramentas de proteção territorial. A partir da REPAM, Oscar Felipe Tellez apresentou a experiência vivida sob a perspectiva da Justiça Digital, conectando as realidades dos povos Kukama e Tikuna-Magüta com a necessidade de um acesso soberano e digno às tecnologias para proteger a floresta.
Um dos debates mais profundos ocorreu na Sala Eugenio Espejo, sob a coordenação de Sally Burch, onde foram analisados os desafios que a Inteligência Artificial (IA) coloca para a comunicação popular. Concluiu-se que, diante do avanço dos algoritmos, a resposta deve ser uma comunicação com rosto humano, que não perca sua ética nem seu enraizamento. Essa reflexão técnica foi complementada pela sensibilidade das paisagens sonoras e pelos “sons que curam”, apresentados por Graciela Martínez, demonstrando que a comunicação também é escuta e cura para o mundo inteiro, integrando os sons da natureza como parte da narrativa que nos identifica. O festival também foi o cenário para a apresentação dos resultados do Projeto Global de Monitoramento da Mídia (GMMP) 2025 para a América Latina, evidenciando os desafios que ainda persistem na representação das mulheres.
Manifesto do Equinócio: exigências e compromissos
O encerramento, realizado na cidade Mitad del Mundo, teve início com um rito ancestral da nacionalidade afro-equatoriana, no qual se pediu licença e força a Changó para abençoar a conclusão do evento. Nesse cenário sagrado, foi feita a leitura do manifesto construído coletivamente, no qual as organizações se comprometeram a exercer uma comunicação digna, não discriminatória, inclusiva e popular, que proteja os territórios e as identidades de todos os povos. Como conclusão final, o festival lançou uma exigência clara às autoridades, aos Estados e às universidades: a criação de políticas públicas e leis de proteção efetivas para os comunicadores comunitários, que frequentemente enfrentam riscos em seu trabalho.
Desde a REPAM, reafirmamos que a Juntanza não termina aqui; partimos com a certeza de que a voz da Amazônia continua caminhando com força, exigindo direitos e semeando esperança em cada canto da Pan-Amazônia.