Querida Amazônia: 6 anos de um caminho sustentado em quatro sonhos

No dia 12 de fevereiro de 2020 foi publicada a exortação apostólica “Querida Amazônia”. Nela, o Papa Francisco nos apresenta as ressonâncias do caminho de diálogo, reflexão e discernimento que foi o Sínodo dos Bispos para a Amazônia, realizado em outubro de 2019. Assinada no dia 2 de fevereiro, festa da Apresentação do Senhor, “Querida Amazônia” é dedicada ao povo de Deus e a todas as pessoas de boa vontade.

Por: Equipe de Comunicações da REPAM

Hoje é válido perguntarmo-nos se estamos próximos de alcançar algum dos quatro sonhos que o Papa Francisco apresentou em “Querida Amazônia”. E é que, se nos remetemos aos números, aos relatórios governamentais, às pesquisas acadêmicas e (mais importante ainda) às vozes da Pan-Amazônia, constatamos que o panorama não é nada animador. A taxa de desmatamento aumentou consideravelmente na última década; os últimos seis anos não são alheios a isso, e os problemas se agravam por causa do desastre ecológico. Hoje vemos que a água, um direito fundamental e vital, é impactada negativamente pelo desastre da mineração, pelos megaprojetos, pela extração de hidrocarbonetos e pela crise climática global.

Ainda mais preocupante, a dignidade humana, as garantias de vida e a liberdade para defender a Pan-Amazônia são violadas por todo o contexto social gerado pelos interesses e ações daqueles que entendem a floresta como um território de exploração sem limites. Hoje, defensores da terra são assassinados, perseguidos e ameaçados; meninas, meninos, jovens e adultos são vítimas do tráfico de pessoas; o desmatamento e a mineração resultam em áreas de proliferação do narcotráfico, e comunidades inteiras são obrigadas a mudar seus meios de subsistência para sobreviver diante do panorama tão desalentador imposto pelas dinâmicas da economia atual.

Um sonho social

O Papa Francisco fez um chamado a nos indignarmos diante da injustiça; também exaltou o papel daqueles missionários que, amparados pelo Evangelho, salvaguardaram os direitos dos oprimidos diante de uma minoria que acumulava riqueza por meio da exploração dos povos originários. Hoje, podemos dizer que a experiência missionária na Pan-Amazônia mantém viva a esperança de alcançar esse sonho social, embora enfrente inúmeros obstáculos a superar; aqui estão alguns deles:

  • Segundo o programa de monitoramento (MAAP), em 2025 mais de 35 mil hectares de floresta foram desmatados em decorrência da atividade mineradora.
  • Brasil, Peru e Guiana registraram os índices mais elevados desse desmatamento, concentrando cerca de 50% dos hectares devastados.
  • A mineração é o primeiro degrau de muitos crimes: perseguição e assassinato de lideranças sociais, contaminação de fontes de água, estabelecimento de locais para o tráfico de pessoas e adaptação de áreas para fins ilícitos.

Hoje temos o compromisso de apoiar o chamado do Encontro com os Povos da Amazônia (Puerto Maldonado, 2018), citado em Querida Amazônia: “Aos membros dos povos originários, agradeço e digo novamente que vocês, com a sua vida, são um grito à consciência… vocês são memória viva da missão que Deus nos confiou a todos: cuidar da Casa Comum”.

Um sonho cultural

O chamado a cuidar das raízes continua sendo necessário; e é que, como expressa a exortação apostólica, “a economia globalizada tende a homogeneizar as culturas e a enfraquecer a imensa variedade cultural…”. Hoje em dia, o choque de realidades tem gerado problemas para as comunidades amazônicas. A imersão dos povos originários no sonho da “ocidentalização” vai muito além de desentendimentos pela simples convivência; torna-se um fator desencadeador da perda de memórias, saberes e narrativas fundamentais para manter em equilíbrio a vida na Pan-Amazônia e no planeta.

Atualmente, a maioria das experiências que a Igreja Católica realiza na Pan-Amazônia compreende e atua sob essa perspectiva, abordando a necessidade de ver a família como a instituição principal para a transmissão de valores e a importância de promover meios de comunicação que valorizem os idiomas e as culturas de cada um dos povos originários. Tampouco se pode deixar de considerar que as populações indígenas da nossa Pan-Amazônia construíram uma relação cultural a partir do ambiente natural que habitam; por isso, é necessário articular essa visão com a perspectiva ecológica e a defesa do território.

Um sonho ecológico

Nos últimos tempos, como Igreja, reacendeu-se a chama que exalta a cosmovisão dos povos originários. Toda essa riqueza, destacada na sabedoria dos povos indígenas amazônicos, “inspira o cuidado e o respeito pela criação, com clara consciência de seus limites, proibindo o seu abuso…”. Neste ponto, podemos destacar ainda mais aqueles que, a partir do voluntariado e do laicato, mantêm o compromisso com a defesa da floresta amazônica (essencial para a vida do planeta). Talvez o sonho ecológico conte com um maior número de espaços para se concretizar plenamente, mas seus opositores (em ascensão) são a maior ameaça que a Pan-Amazônia enfrenta. Se retomarmos o conceito de equilíbrio planetário (dependente da Amazônia, do bioma do Congo e de Bornéu), vemos que ainda há uma frente na qual também é necessário indignar-se e continuar tomando ações que motivem a alcançar uma ecologia integral.

É necessário reafirmar outro dos postulados dentro do sonho ecológico: na Amazônia, a água é a rainha. Para os povos indígenas, o rio não é uma barreira que divide diferentes áreas, mas um ponto de encontro comum que facilita a convivência entre culturas. Como Igreja e, em especial, como Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), foi ratificado o compromisso com a água e tudo o que ela representa; entende-se como um eixo transversal e articulador que permite abordar e enfrentar cada uma das problemáticas que se apresentam na Pan-Amazônia.

Um sonho eclesial

A Igreja foi chamada a optar por um caminho: “a autêntica opção pelos mais pobres e esquecidos, ao mesmo tempo que nos move a libertá-los da miséria material e a defender os seus direitos, implica colocá-los em amizade com o Senhor que os promove e dignifica”. Na atualidade, pode ser difícil ir além da doutrina e das lições, mas professamos uma Igreja que caminha de mãos dadas com os povos originários e que entende a necessidade de comunicar aos que habitam a Pan-Amazônia que eles são o reflexo do rosto de Cristo e a expressão do amor infinito que Deus lhes concede, tornando-os dignos diante da vida.

Querida Amazônia é, para a REPAM, um mapa de ação. Sendo uma rede eclesial que vive as dinâmicas daqueles que habitaram, habitam e muito provavelmente habitarão a Amazônia, assume a missão de encarnar o que está descrito na exortação apostólica e reafirmá-lo em cada uma das ações realizadas. Por isso, como organização que acompanhou o processo sinodal à luz dos ensinamentos de Jesus, de São Francisco de Assis e do Papa Francisco, não deixamos de lado o chamado a “avançar por caminhos concretos que permitam transformar a realidade da Amazônia e libertá-la dos males que a afligem”.